O Vale da Alvorada
O Berço dos Dragões
Ao norte de Rarion repousa o lugar mais antigo de Kantos: o Vale da Alvorada, onde os Dez Dragões Primordiais tocaram o mundo pela primeira vez.
"Antes que existissem muralhas, impérios ou reis, o primeiro som ouvido em Kantos não foi a voz de um homem, mas o bater das asas daqueles que moldariam o próprio mundo." — Inscrição preservada entre as ruínas do Vale da Alvorada
Ao Norte de Rarion, onde as primeiras luzes do amanhecer tocam as colinas de Zetaha, encontra-se uma região selvagem, hostil e que nenhum mapa é capaz de representar completamente. Ali ergue-se o Vale da Alvorada, considerado por sábios, draconatos e estudiosos como um dos lugares mais antigos de toda Kantos.
O vento sopra de maneira diferente. As pedras parecem guardar memórias. E quando o Sol nasce, muitos juram ouvir um distante bater de asas ecoando entre as montanhas.
Os povos acreditam que foi ali que os Dez Dragões Primordiais tocaram o mundo pela primeira vez.
Os Dez Primordiais
Muito antes do nascimento das civilizações, a influência das forças da criação moldou dez seres destinados a dar forma ao mundo recém-criado. Não eram deuses. Jamais desejaram ser adorados. Eram os primeiros guardiões da criação.
Eram Dragões.
Cada um recebeu uma parcela da essência do universo, tornando-se responsável por manter o equilíbrio de Kantos. Cinco ficaram conhecidos como os Primordiais Cromáticos, ligados às forças naturais. Os outros cinco tornaram-se os Primordiais Metálicos, responsáveis por conduzir o florescimento da vida inteligente e das civilizações.
Os Primordiais Cromáticos
| Primordial | Cor | Domínio |
|---|---|---|
| Dhadosh, o Exuberante | Azul | Senhor das águas, das tempestades e dos mares. Criador do Outono. Foi ele quem ensinou os oceanos a respirarem e os céus a derramarem chuva. |
| Naturion, o Selvagem | Verde | Guardião das florestas, das plantas e das criaturas selvagens. Criador da Primavera. Onde suas escamas tocavam a terra, árvores surgiam em poucos instantes. |
| Glaciriana, a Gélida | Branca | Rainha dos ventos gelados. Criadora do Inverno. Seu sopro congelou os extremos norte e sul de Kantos, dando origem às grandes regiões polares. |
| Solanar, o Explosivo | Vermelho | Mestre do fogo. Criador dos vulcões, desertos e do Verão. Seu coração ardente tornou possível o calor que mantém a vida. |
| Mortaria, a Ceifadora | Negra | Guardiã da noite. Senhora do descanso eterno. Foi ela quem ensinou ao mundo que toda vida possui um começo… e também um fim. |
Os Primordiais Metálicos
| Primordial | Metal | Domínio |
|---|---|---|
| Godosh, o Iluminado | Dourado | O primeiro entre seus irmãos. Conta a tradição que, ao abrir suas enormes asas sobre o cume do Monte Orion, o Sol nasceu pela primeira vez. Muitos povos o chamam de Pai da Luz. |
| Sintilandariel, o Moldador | Prata | Ao tocar o solo de Kantos, suas escamas, fragmentos de pedra e folhas carregadas pelo vento deram origem aos primeiros elfos, anões e draconatos. É considerado o grande arquiteto das raças ancestrais. |
| Manahonara, a Caridosa | Bronze | Modelou os humanos a partir da terra umedecida pelas águas dos rios. Das pequenas flores surgiram os povos diminutos, como halflings e gnomos. Concedeu a todos coragem para enfrentar um mundo ainda desconhecido. |
| Ulariel, o Sábio | Cobre | Quando a primeira noite caiu sobre Kantos, lançou seu sopro contra o firmamento e as primeiras estrelas acenderam-se. Das fagulhas que caíram sobre a terra nasceu a Trama Arcana. Por essa razão é lembrado como o Pai da Magia. |
| Tandariel, a Acolhedora | Latão | Percebendo que a vida sozinha não bastava, concedeu aos povos a linguagem, o raciocínio, os números e a capacidade de construir civilizações. Todo conhecimento nasce, em algum grau, de seu legado. |
A Era dos Grandes Guardiões
Muito antes da Anulação, os dragões caminhavam livremente entre os povos de Kantos. Naqueles dias, não eram vistos como monstros — eram os Grandes Guardiões da Criação.
Todos seguiam um antigo ensinamento deixado pelos Primordiais, conhecido como O Primeiro Voo: o verdadeiro poder existe apenas para proteger aquilo que é incapaz de proteger a si mesmo.
Por isso, era comum que enormes dragões fossem vistos repousando próximos às cidades. Os pescadores saudavam um antigo dragão azul antes de sair para o mar. Nas grandes florestas, dragões verdes caminhavam silenciosamente ao lado de druidas. Dragões dourados aconselhavam reis. Prateados ensinavam jovens magos. Até mesmo muitos cromáticos eram respeitados — não porque fossem dóceis, mas porque compreendiam que sua força existia para manter o equilíbrio do mundo.
O Dia da Anulação e a Grande Ruptura
Então veio o Dia da Anulação.
Quando o mundo caminhava para seu fim, os Primordiais compreenderam que apenas um sacrifício absoluto impediria o desaparecimento definitivo de Kantos. Cada um deles entregou parte de sua própria essência para preservar o equilíbrio da criação.
O preço foi imenso. Os Primordiais desapareceram. E seus descendentes sobreviveram… mas algo havia sido perdido para sempre.
Os antigos sábios explicam esse acontecimento através de uma metáfora: imagine uma árvore milenar. Seu tronco permanece de pé. Suas raízes continuam profundas. Mas a seiva deixa de alcançar seus galhos. Os dragões não perderam sua magia. Perderam sua ligação com aqueles que lhes davam propósito. Perderam a memória de sua origem.
Sem os Primordiais para guiá-los, cada dragão passou a interpretar sozinho o significado do próprio poder. Alguns permaneceram fiéis aos ensinamentos do Primeiro Voo. Outros enlouqueceram. Muitos permitiram que o orgulho substituísse a sabedoria.
Hoje, poucos dragões vivem próximos às civilizações. Quando um dragão sobrevoa uma cidade, todos interrompem aquilo que estão fazendo. Ninguém sabe se está diante de um protetor... ou de uma calamidade.
O Último Presente de Solanar
Entre todas as histórias preservadas pelos Filhos da Pedra, nenhuma é lembrada com tanto respeito quanto o último ato de Solanar.
Muito antes da Anulação, o grande Dragão Primordial Vermelho fazia do Monte Crepitante sua morada. Seu coração ardente aquecia naturalmente todas as forjas do futuro Salão de Fogo. Antes de assumir um papel de grande importância — algo que sabia que levaria sua vida — reuniu os primeiros reis anões. Nenhuma palavra daquele encontro foi registrada.
Os antigos dizem que algumas despedidas pertencem apenas àqueles que as viveram.
Conta a tradição que Solanar mergulhou lentamente no coração do vulcão. Seu corpo transformou-se em fogo. Seu sangue tornou-se magma. Suas asas incendiaram o céu. Seu rugido ecoou por todos os continentes de Kantos.
Naquele instante, entregou sua última chama ao povo anão. A Grande Forja Eterna foi acesa e jamais voltou a se apagar.
Desde então, toda arma forjada em seu fogo carrega um fragmento da última respiração do Primordial. Até hoje, quando um mestre ferreiro conclui a maior obra de sua vida, repousa a mão sobre a forja e sussurra:
"Que tua chama ainda encontre abrigo em minhas mãos."
Os Filhos dos Dragões — Os Draconatos
Existe uma antiga crença entre os estudiosos de Zetaha. Afirmam que, de tempos em tempos, os dragões abandonam sua verdadeira forma. Capazes de assumir a aparência de homens e mulheres de extraordinária beleza, caminham entre os mortais. E quando se unem a humanos, elfos ou outros povos, podem nascer descendentes que carregam no sangue o fogo primordial.
Os draconatos são reconhecidos em toda Kantos por sua resistência, força e pela capacidade inata de canalizar energias elementais. Muitos possuem características físicas que lembram levemente suas linhagens dracônicas — escamas na pele, olhos de cor incomum, ou uma presença que faz qualquer sala parecer menor.
Os poucos draconatos que conhecem sua verdadeira origem frequentemente buscam o Vale da Alvorada em busca de respostas sobre seus ancestrais. Alguns relatam ouvir vozes entre as ruínas. Outros juram ter visto sombras de asas imensas refletidas no solo durante o amanhecer.
A maioria volta sem as respostas que procurava. Mas com perguntas que nunca haviam considerado.