Conto: O Mapa Incompleto
Longe da segurança dos grandes impérios, um cartógrafo da Academia Arcana encontra abrigo em uma das Cidades Livres e descobre que algumas fronteiras não podem ser desenhadas.
"Os reis desenham fronteiras. Os aventureiros desenham mapas. São eles que descobrem aquilo que os reinos ainda não tiveram coragem de encontrar."
— Trecho do Diário do Explorador Arkan Velor
A chuva batia furiosamente contra as janelas da taverna "O Cão Sem Coroa", abafando o som dos dados de osso rolando nas mesas rústicas. O ar cheirava a cerveja derramada, a fumaça de tocha e ao tipo de solidão que as pessoas levam consigo quando atravessam fronteiras sem permissão. Localizada em Ponto de Ferro, uma das infames Cidades Livres que não constavam nos registros fiscais de Antares, a taverna era um santuário para aqueles que o continente preferia esquecer.
Icarus, um cartógrafo da Academia Arcana, secou os óculos com a barra do manto encharcado e os recolocou com cuidado. Desenrolou seu pergaminho sobre a mesa de madeira cheia de cortes — o couro ressecado do rolo estava macio demais nas bordas, desgastado por semanas de uso. Ele empurrou o tinteiro para longe das canecas dos mercenários e inclinou-se sobre o mapa.
As linhas eram impecáveis. Era esse o problema.
"Você vai furar esse papel se continuar encarando desse jeito, acadêmico."
A voz, arrastada e áspera, veio da cadeira em frente. O homem vestia couro escuro manchado pela estrada. Carregava duas espadas curtas nos quadris e tinha os cotovelos fincados na mesa como raízes — o tipo de postura que não pede licença para ocupar espaço. Era Kael, um rastreador veterano.
"Estou tentando entender onde errei," Icarus disse, batendo o dedo irritado no pergaminho. "De acordo com os cálculos da Academia, as ruínas da Terceira Era deveriam estar a oeste das Colinas dos Falcões. Mas a cordilheira aqui..." Ele passou o dedo sobre uma linha desenhada com precisão clínica. "Ela simplesmente não faz sentido topográfico."
Kael riu — um som seco, como galho quebrando — e puxou a caneca. "O erro, menino da cidade, é achar que o mundo obedece à tinta."
"O método de triangulação foi exato." Icarus ajeitou os óculos. "Dois terços de Irakantos ainda estão em branco. Se não formos precisos..."
"Se não for preciso, o quê?" Kael se inclinou para a frente. A distância entre eles diminuiu. "Acha que as Cidades Livres existem porque os lordes de Antares nos deixaram em paz? Não. Elas existem porque o mundo lá fora é muito grande, muito perigoso e muito antigo para ser domado por estradas de mármore e impostos."
Icarus abriu a boca. Fechou-a.
"A Academia afirma que só não tivemos recursos suficientes para mapear as áreas densas," disse ele, por fim, mas a frase saiu mais fraca do que pretendia.
Kael apontou para o espaço em branco no pergaminho. "Sabe o que há aí? Coisas que não podem ser contidas por linhas de fronteira. Túneis que atravessam montanhas inteiras, feitos por povos que existiam antes de qualquer um de nós. Lagos onde o céu reflete as estrelas em plena luz do dia. As Cidades Livres são só as margens desse oceano de desconhecido."
A chuva bateu mais forte contra as janelas. Alguém do outro lado da taverna gargalhou.
Icarus olhou para o mapa. Para as linhas tão retas, tão confiantes em si mesmas. Ele nunca havia percebido o quanto o pergaminho cheirava a sala fechada — a academias, a arquivos empoeirados. Nada do que estava lá dentro tinha o cheiro da estrada que o trouxera até Ponto de Ferro.
"Então," começou, a voz falhando, "você sugere que eu desista da expedição?"
"Estou sugerindo que você guarde as réguas, acadêmico." Kael se levantou, jogando duas moedas de cobre na mesa. Elas rodaram antes de parar. "Pegue uma espada melhor e comece a desenhar o que o mundo dita, não o que Antares quer ler. Se quiser sobreviver para terminar esse mapa amanhã, estejamos prontos ao amanhecer."
O mercenário caminhou até a porta e saiu sem olhar para trás.
Icarus ficou parado.
A chama da tocha mais próxima tremeu. As vozes da taverna continuaram em volta dele — dados, risos, o bater de canecas. Um mundo que existia completamente alheio a qualquer mapa que alguém tivesse feito ou pudesse fazer.
Ele olhou para o tinteiro.
Depois olhou para a rota que havia calculado — a linha reta perfeita que cortava dois terços do pergaminho como uma certeza. Lentamente, sem pressa, pegou o frasco. Sentiu o peso do vidro frio na palma da mão. E derramou.
A tinta escura avançou sobre o pergaminho, engolindo a rota impecável, manchando as Colinas dos Falcões, borrando a cordilheira impossível.
O mundo além das muralhas não era feito de linhas retas.
Icarus estava finalmente pronto para descobrir o que as histórias omitiam.