Conto: As Sombras de Antares
Nos corredores políticos de Antares, a cortesia esconde ambições perigosas. Um conselheiro descobre que o conhecimento arcano tem seu preço.
"Conhecimento ergue muralhas. Justiça mantém seus portões abertos. Sabedoria decide quando fechá-los."
— Máxima ensinada aos novos guardiões da Academia Arcana
O salão oeste do Conselho de Antares fedia a rosas e conspiração.
As velas tremiam com a brisa fria que entrava pelo vão das janelas altas, fazendo as sombras dos presentes oscilar nas paredes de pedra branca como figuras sem decisão. Lorde Valerian girava a taça de cristal entre os dedos esguios — lentamente, como quem precisava manter as mãos ocupadas para que a mente permanecesse imóvel. O vinho tinto parecia quase negro sob aquela luz.
Ele observava a conselheira Lyra, que discutia com fervor no centro da sala. Ela defendia o aumento da tributação sobre os itens da Academia Arcana, alegando que o conhecimento arcano precisava pagar seu preço para a cidade. Gesticulava com a elegância de quem foi treinada desde a infância para dominar palcos e assembleias.
"Não podemos permitir," Lyra elevou a voz, "que uma instituição dite as regras econômicas de Antares usando o pretexto da segurança! O livre mercado deve imperar!"
Valerian levou a taça aos lábios, mas não bebeu. O diálogo no conselho sempre era um teatro; a verdadeira política acontecia nas pausas, nas meias-palavras trocadas em pé junto às paredes. Lyra acreditava ter o controle, mas ignorava quem estava segurando as cordas de sua retórica.
O assento ao lado de Valerian foi ocupado em silêncio. O homem usava o cinza neutro dos mensageiros das Casas de Comércio. Era baixo, de rosto estreito e mãos que não ficavam quietas — dedos que dobravam e desdobravam uma tira de couro enquanto falava, como se precisassem de algo para manter o ritmo.
"O acordo foi selado em Rarion, milorde," murmurou o mensageiro, a voz fundindo-se ao farfalhar dos tecidos e conversas da sala. "As caravanas estão atrasadas. A culpa, como planejado, recairá sobre os guardiões da Academia que falharam em patrulhar o Rio Preto."
Valerian assentiu, os olhos ainda em Lyra. "Ela comprou a isca. Acredita que o atraso é prova de que a magia desestabiliza o comércio. Quando as mercadorias chegarem, semanas depois, controladas pela nossa guilda, os preços terão triplicado."
"Há um inconveniente."
O mensageiro parou de dobrar a tira de couro.
"Um forjador anão recusou a encomenda em Antares. A adaga de obsidiana, necessária para o segundo passo, não foi concluída."
A mão de Valerian apertou a haste de cristal com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos. Ele não disse nada por um momento. No centro da sala, Lyra continuava discursando, a voz crescendo, convicta de que estava vencendo. Valerian percebeu, ali, que a havia subestimado em um aspecto: ela não era apenas uma peça — era uma testemunha. E testemunhas criavam complicações.
"Os anões," Valerian suspirou, recompondo a máscara de civilidade. "Sempre preocupados demais com a pedra e de menos com o progresso."
Ele colocou a taça sobre a mesa. O som vítreo cortou o ar do salão com uma precisão quase calculada. Lyra parou de falar por uma fração de segundo, seu olhar cruzando com o de Valerian. Havia confusão nela — o instinto de quem percebe que o peso da sala acabou de mudar sem entender por quê.
"Mande os homens de Rarion," Valerian sussurrou ao mensageiro. "Se a obsidiana falhou, usaremos o aço humano."
"Mas milorde, o aço deixa rastros..."
"O que é um rastro de sangue, senão uma linha que podemos apagar com dinheiro?" Valerian finalmente provou o vinho. Estava ácido. Ele preferiu não pensar no que isso significava. "A Academia quer proteger a magia. Nós queremos governar Antares. E na Cidade Branca, as muralhas são fortes, mas a verdadeira fundação é feita de ouro e subornos."
Ele se levantou, ajeitando o manto com gestos calculados. Mas enquanto caminhava em direção a Lyra, algo pequeno havia mudado em seu peito — uma rigidez nova, como metal que esfria mais depressa do que deveria. A adaga de obsidiana era a solução limpa. O aço humano era uma improvisação. E Valerian detestava improvisar.
"Conselheira," disse ele em voz alta, atraindo a atenção de todos, o sorriso perfeitamente no lugar. "Suas palavras possuem o peso da verdade. Acredito que, juntos, poderemos encontrar uma... solução definitiva para o problema da Academia."
Lyra sorriu de volta, satisfeita.
Era exatamente esse sorriso que o preocupava.