Conto: A Escolha do Forjador
Sob o sol implacável da Cidade Branca, um forjador anão e um comerciante humano negociam um artefato que pode mudar o destino de Antares.
As botas de Kaelen, pesadas e gastas, faziam um som rascante contra o mármore liso das ruas de Antares. Ele detestava caminhar pelo coração da Cidade Branca. O brilho excessivo das pedras feria seus olhos, um lembrete constante de que aquele não era o seu mundo. Seu domínio ficava nos níveis inferiores, junto às fornalhas que ardiam dia e noite — onde o ar tinha sabor de cobre queimado, onde o calor pressionava contra a pele como uma mão espalmada, e o único silêncio que existia era o silêncio entre dois golpes de martelo.
Ali em cima, o ar cheirava a perfume barato e traição.
Ele parou sob a sombra de um pórtico esculpido perto dos limites da Academia Arcana. Seus ombros largos e as mãos grossas e calosas denunciavam sua linhagem, os Filhos da Pedra. E como todo anão, Kaelen não construía pensando apenas no agora.
"Está atrasado, forjador."
A voz deslizou da sombra de um pátio adjacente. Era Varis, trajando sedas tingidas no azul profundo dos mercadores de Rarion. As roupas contrastavam quase ofensivamente com o avental de couro desgastado de Kaelen.
"O fogo não obedece a relógios solares, humano." Kaelen plantou os pés com firmeza. "E a pedra de obsidiana tem um temperamento... difícil."
Varis sorriu, mas a expressão não alcançou os olhos. "Espero que o esforço tenha valido a pena. Trouxe a lâmina?"
Kaelen levou a mão lentamente à bolsa de couro atada ao quadril. O peso ali dentro parecia muito maior do que os poucos centímetros da adaga deveriam pesar. A obsidiana bruta havia sido encontrada nas profundezas das escavações recentes e exigira dias ininterruptos de trabalho para ser moldada. Três noites sem dormir. O cheiro de pedra queimada ainda estava impregnado nas dobras do seu pescoço.
"A peça está pronta," disse Kaelen, a voz baixa. "Mas há um problema. Esta pedra, Varis... ela tem memória. Ela ressoa com intenções."
O sorriso do comerciante sumiu. Ele deu um passo à frente, revelando anéis de ouro puro nos dedos finos — mãos que nunca haviam levantado um martelo. "Isso soa como um prelúdio para aumentar o preço. Quinhentas moedas de ouro já é um valor exorbitante por uma adaga."
"O ouro alimentaria minha família por três gerações." Kaelen não desviou o olhar. "Mas esta lâmina, forjada nas chamas certas, é capaz de cortar não apenas carne, mas a própria Centelha Arcana de quem for ferido." Ele estreitou os olhos. "Você nunca mencionou que a encomenda era para um ritual de silenciamento."
Varis soltou um suspiro agastado e olhou ao redor com cautela. A poucos quarteirões dali, studiosos e aprendizes caminhavam pelos corredores da Academia Arcana.
"Você é pago para bater no metal, anão, não para fazer perguntas." A cortesia havia evaporado. "Se eu desejo silenciar um mago rebelde que deve muito a pessoas importantes, isso não é problema seu. Entregue-me a bolsa."
Kaelen não respondeu imediatamente.
Ele olhou para a bolsa de couro na própria mão. Sentiu o contorno da adaga através do couro — o ângulo preciso da guarda, o equilíbrio que levara horas para acertar. Ouviu, por um instante, o barulho das fornalhas nos níveis de baixo. O ritmo do fole. O som do metal cedendo ao calor. Os Filhos da Pedra não tinham um provérbio para esse momento — porque os anões não construíam sem saber para quê.
Ele desatou a bolsa e a abriu.
A luz ofuscante de Antares pareceu ser engolida pela superfície vítrea e escura da adaga de obsidiana. Era uma obra de arte letal, silenciosa e perfeita.
Varis estendeu a mão pálida, os olhos brilhando de ganância e antecipação.
No último milissegundo, em vez de entregar o cabo, Kaelen fechou o próprio punho em torno da lâmina afiada.
A obsidiana cortou a pele espessa do forjador com uma facilidade cruel. Um filete de sangue escuro e quente escorreu, manchando irremediavelmente a pureza vítrea da pedra e quebrando os selos rúnicos invisíveis que Kaelen havia entalhado com tanto esforço.
Ele jogou a arma inutilizada no chão, entre as botas lustrosas de Varis. A pedra bateu no mármore com um ruído seco.
"O que você fez, seu animal estúpido?!" Varis gritou, recuando, o rosto contorcido de horror ao ver o sangue e a pedra maculada. "Você arruinou a matriz! O ritual..."
"Não vai acontecer," disse Kaelen.
Ele enrolou um farrapo sujo ao redor da mão que sangrava abundantemente. A dor era excruciante, mas sua postura permaneceu inabalável, como a própria rocha de onde seu povo viera.
"Sua família vai passar fome nas entranhas daquela fornalha," Varis sibilou. "Eu garanto isso."
"Talvez." Kaelen virou as costas. O som de suas botas ecoou pelo corredor de mármore. "Mas nós dormiremos sabendo que não fomos nós que abrimos as portas para a destruição. Fique com a pedra, humano. Considere um presente."
Enquanto descia de volta para o calor e a fuligem dos níveis inferiores, Kaelen sentiu o arrepio da dor em sua palma. O mundo de Irakantos permanecia um lugar de beleza ilusória e corrupção latente, e Antares, com toda a sua grandiosidade, dependia da firmeza de quem suportava as chamas ocultas para manter suas muralhas de pé.